O castelo de suas ilusões vem sem estrondo. Sem deixar rastro, virou fumaça como um sonho; e ele nem sequer percebe que esteve sonhando. -Dostoiévsky

 

O que é o mito de Édipo

O mito que ficou popularmente conhecido na psicologia pelo termo errôneo de “Complexo de Édipo” tornou-se algo tão popular que passou a ser um sinônimo para a psicanálise. Na estória, Laio, o rei de Tebas, recebe uma predição do Oráculo de Delfos, que adverte ao rei que ele seria assassinado e teria seu trono roubado pelo próprio filho. Para evitar o cumprimento da profecia, assim que a rainha dá a luz a um filho homem, este tem seus pés amarrados e é ordenado que seja abandonado num campo para morrer. Entretanto, o escravo encarregado desta função, fica com pena do bebê, e o entrega a um pastor, para que seja criado em uma terra distante sem saber de suas origens. A esta criança é dada o nome de Édipo (em grego antigo, pés inchados ou furados). Quando se torna adulto, em uma de suas viagens Édipo mata o pai sem saber quem era aquele homem com quem cruza a estrada. Quando chega a Tebas, liberta a cidade da opressão da esfinge, por conseguir resolver seus enigmas, e é aclamado rei, encantando-se pela sedução da rainha viúva que era sua mãe. Édipo nunca sabe de seu laço de sangue, até que a verdade lhe é revelada quando começa a investigar quem teria sido o assassino do antigo rei. Ao dar-se conta do que cometeu, fura os próprios olhos com as jóias da mãe, e condena-se a vagar cego e sem destino, por não querer mais ter olhos para encarar nem sua família gerada no incesto, nem seus espíritos quando se encontrarem no pós-vida do Hades.

A repulsa que qualquer leitor sente ao ser cogitado sobre a semelhança de seu desejo com a desventura do protagonista da tragédia, parece ser tão grande que só não pratica a mesma auto-punição, porque consegue senti-la como um absurdo teórico dos psicanalistas. E a constatação de que não há relação alguma entre o personagem da estória e o leitor, é bastante simples de ser demonstrada: “Sei de que se tratam esses sentimentos porque há pessoas no mundo sobre as quais poderia afirmar meu interesse sexual, bem como há outras que odiei o bastante para querer que estivessem mortas, mas de nenhuma destas duas categorias fazem parte meu pai ou minha mãe”. Além disso, é diferente possuir intenções reprimidas e realmente cometê-las. O próprio drama de Édipo acontece porque ele cometeu seus delitos ignorando completamente o que estava fazendo. Mas se um absurdo tão óbvio como esse continua a ser estudado pelos psicanalistas em sua relação com o psiquismo das pessoas nos dias de hoje, certamente é porque há outras considerações necessárias para além da simples constatação de que uma estorieta qualquer poderia dizer sobre algo presente em todo sujeito.

Uma dessas considerações adicionais já fica demonstrada numa crítica comum que as pessoas fazem ao mito de Édipo: “Se fosse verdade que todo menino tem desejo por sua mãe e ódio contra o pai, então as crianças órfãs não teriam como passar pelo ‘complexo de Édipo’, e acabariam se tornando humanos totalmente anômalos”. Uma constatação muito sensata, e que podemos elaborar ainda melhor: Se fosse verdade que o mito de Édipo necessitasse da presença física do pai e da mãe, a ausência de um deles seria catastrófica para a formação da criança. Se sabemos que isso não ocorre, então a estória do mito não precisa dessas pessoas para continuar a vigorar. Assim sendo, as denominações pai ou mãe cumprem aqui uma função simbólica, e não depende da presença física destas pessoas.
Mas com tamanha indeterminação, pode parecer que qualquer objeto poderia vir a assumir quaisquer dos papéis do Édipo! Poderia uma vizinha estar encarnando esse papel da mãe? Poderia um irmão ser colocado nesse papel de pai? Não podemos sustentar que qualquer coisa possa ter o papel de qualquer coisa, de forma tal que se há um espaço onde o pai pode estar, há outros onde ele não pode estar ao mesmo tempo.

É utilizando outra aproximação para descrever o mesmo mito, que Jacques Lacan define um dos papéis mais importantes para compreendermos de que se trata toda essa bagunça. Trata-se de explicar com outras metáforas, o que afinal é a mãe nesta salada simbólica, onde a busca em fazer uma correspondência direta com a realidade tem um papel muito pouco expressivo. A mãe pode ser pensada como uma grande boca que nunca deixa de exibir seus dentes como prova de que jamais tem sua fome saciada, que está sempre em busca de engolir, envolver, cingir, guardar, conquistar, reintegrar aquilo que já foi dela um dia e dela foi extirpado. Seu desejo de fazê-lo é ainda clamado como um direito de recuperar o que já foi seu. Ainda que o deseje, há algo que mantém suas crias livres de serem devoradas. Trata-se de um pauzinho, que impede que esta boca se feche. Ao mesmo tempo em que impede que se complete o movimento a que se propunha, evidencia perpetuamente o desejo que não pode se concretizar graças à castração da qual esta mãe não pode fugir. Este tal pauzinho, trata-se exatamente do falo, e ali é posto com o poder da interdição paterna, que enuncia: “Não reintegrarás o produto do teu ventre”. É só por ouvir esta frase que parte do pai e se destina à mãe, que a criança pode inferir como conseqüência, uma outra tradução que se destinaria à própria criança: “Não dormirás com tua mãe”.

Aqui o desejo dos envolvidos parece ficar mais exposto. A frase destinada à mãe “Não reintegrarás o teu produto”, e a frase destinada à criança “Não dormirás com tua mãe” precisa nos levar a pensar: Qual seria a mãe que não desejaria dedicar todo seu amor para acolher o filho e protegê-lo dos males a que uma criança estaria exposta no contato com o mundo exterior? Como seria possível a uma criança, não desejar ser totalmente amparada por sua mãe, visto que sozinha não sobreviveria no mundo? E trata-se de um papel realmente impertinente, digno de aversão, esse que desempenha o pai quando vem impor que tal amor pleno não poderá realizar-se. A mesma questão vale também para elucidar que o mito não se dedica a descrever uma situação que ocorre com um filho homem e sua mãe, mas que seria estendida a todos os seres falantes.

Mais uma percepção comum neste ponto é a seguinte: “Mas então não há problemas! Pois afinal, isso que vocês psicanalistas chamam de desejo, vejo que na verdade não tem nada de sexual, pois é buscar receber carinho, atenção, aconchego”. É claro que uma criança não poderia fazer a ligação desses prazeres que busca ter no contato com a mãe, com a experiência de prazer do ato sexual, que nunca experimentou. Tal associação pode ser feita apenas por um adulto, e ele pode ser encontrado em dois lugares: um seria o adulto no qual a criança irá se transformar, e que vai poder repensar sua experiência infantil, a partir do ponto de vista de quem conhece todo o mundo que está além dos cuidados maternos. O outro adulto presente seria a mãe, que dedica-se à maternagem ao mesmo tempo em que é alguém que conhece o que é o ato sexual. Assim, a mãe estaria em posição de transmitir algo desse mundo ao filho de quem se ocupa em criar. Mostra de que isso acontece, é a culpa ou vergonha que muitas mães experimentam ao amamentarem seus bebês, como se esse ato tivesse algo de sexual a ele intrínseco. Pois sucede que realmente, nos animais mamíferos, o ato sexual não se limita à cópula, mas se estende até a amamentação, pois não existe sucesso da reprodução da espécie se algo impossibilita esse último estágio da relação sexual.

Quando uma pessoa conhece pela primeira vez o ato sexual, não importa se ela já havia sido educada para tal, se a parceira era experiente, ou se foi muito desajeitado. Como dizem os ditos, isso é uma coisa que não precisa ninguém ensinar como fazer. O que nos dá duas possibilidades: ou as pessoas possuem um instinto tal como os outros animais, que as conduz à prática sexual, ou elas captaram algo do universo dos adultos sem que esses lhes falassem diretamente sobre isso. Mas as duas opções diriam respeito a que, mesmo sem conhecer o que é o ato sexual, crianças já possuiriam a capacidade de sexualizar aquilo que antes não o era, de maneira tal que, após o desenvolvimento de seu corpo, como que por uma passe de mágica já se encontrem em condições de fazer uma coisa da qual não seria necessário que ninguém as instruísse dos detalhes.

Outro ponto que costuma causar estranhamento, viria em uma questão como: “Mas não é verdade que todo pai imponha a limitação ao desejo da mãe de manter a criança ligada a ela!” Invariavelmente a mãe não vai poder zelar por seu filho de forma ininterrupta tal como fazia enquanto o trazia dentro da barriga. A mãe vai experimentar a concorrência entre seu desejo de cuidar de seu filho e seu desejo de fazer alguma outra coisa. Nessa impossibilidade da mãe ser completa em seu cuidado com a criança, se apresentará a função paterna, que consiste na garantia de que o desejo da mãe também aponta para alguém mais, e não poderá ser lançado exclusivamente ao amor à criança, sendo falho em sua intenção, e criando a falha própria que permitirá a formação de um sujeito, sua hesitação em agir, a incompletude ao transmitir uma idéia, a incerteza das palavras, as tão absurdas formações do inconsciente.

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